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O processo de pesquisa e desenvolvimento nas empresas

O processo de pesquisa e desenvolvimento nas empresas

A nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) sobre os indicadores da Pesquisa de Inovação (PINTEC) 2017, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e divulgada em abril de 2020, mostra que os investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) são pró-cíclicos, isto é, tendem a acompanhar o comportamento da economia, principalmente se estes perduram por muito tempo. No entanto, a nível global, esse cenário se mostra em constante evolução. Brennan et al. divulgam em seu artigo ‘Building an R&D strategy for modern times’ que, no ano de 2019, as empresas gastaram o equivalente a 2,3 trilhões de dólares em P&D, aproximadamente 2% do PIB mundial. A Figura 1 desdobra estes investimentos dentro do setor privado, por tipo de indústria (em bilhões de dólares).

Figura 1 – Investimentos totais em P&D do setor privado global

Fonte: Brennan et al (2020)

 

Já a Figura 2 mostra a taxa de inovação em diferentes segmentos de mercado, sendo calculada como a razão entre o número de empresas que implementaram inovações em produto e/ou processo em relação ao total de empresas.

 

Figura 2 – Evolução da taxa de inovação nas três últimas edições da PINTEC

Fonte: Nota Técnica Diset – IPEA (2020)

 

Com a dificuldade de previsão sobre cenários futuros, devido à alta volatilidade do mercado, muitas empresas optam por reservar seus recursos financeiros e não investir num processo de P&D, visto que isso incorre em investimentos iniciais, associados à realização da pesquisa interna ou externamente, pagamentos de taxas e/ou licenças, entre outros gastos envolvidos. Diante disso, aquelas empresas que decidem investir no processo de P&D, o devem fazer de forma muito bem pensada e estruturada. O objetivo deste artigo é apresentar alguns conceitos relacionados a P&D e fatores que devem ser considerados para se obter uma maior eficácia durante o processo.

 

Funções da área de Pesquisa e Desenvolvimento

 

De forma simples, o P&D é a união da Pesquisa – ferramenta para a descoberta de novos conhecimentos – e do Desenvolvimento – aplicação de novos conhecimentos para se obter resultados práticos. A área de P&D é a responsável pela captação de informações e levantamento de dados sobre mercado, clientes, tecnologias, inovação e novas tendências. Ao investir em P&D, as empresas esperam produzir tecnologia que as permita desenvolver novos produtos, serviços e modelos de negócios; entretanto, para entregar um valor genuíno, o processo deve estar interligado à missão da empresa. Brennan et al (2020) apresentam algumas questões a serem respondidas pelas empresas, a fim de ajustar o direcionamento de suas estratégias de P&D, visto que o primeiro passo para se desenvolver um processo de P&D é a definição de uma estratégia clara. As questões são:

 

  • O que queremos entregar – entendimento sobre o que a empresa quer e pode entregar. As áreas de P&D, comercial e estratégica necessitam trabalhar em conjunto, no qual o comercial e o estratégico devem auxiliar o time de P&D nas prioridades da empresa, enquanto este deve informar o que é possível ser feito;
  • O que necessitamos para entregar – determina quais competências e tecnologias a empresa necessita para levar as soluções desejadas para o mercado;
  • Como faremos – as escolhas referentes ao modelo de operação e modelo organizacional determinam quão bem a estratégia de P&D é executada. Durante o desenvolvimento da estratégia, o foco deve ser nos facilitadores que representam habilidades transversais e modos de trabalho.

 

Com relação ao início do processo de P&D, não há um padrão para a sua estruturação, a qual pode diferir entre empresas com o mesmo propósito, pois cada uma possui a sua própria metodologia de pesquisa.

 

As 6 fases do processo de P&D

 

De forma geral, um processo de pesquisa pode ser resumido em seis etapas:

 

1. Promover ideias: brainstorming inicial, com entendimento e apontamento de dificuldades. Posterior convergência para áreas centrais de oportunidade;

 

2. Focar nas principais ideias: a primeira rodada de ideias pode ser vasta e genérica, o segundo passo é olhar para os produtos existentes e analisar quão original é a nova ideia e como ela pode ser bem desenvolvida;

 

3. Desenvolver as ideias: uma vez que a ideia tenha sido completamente abordada, pode ser combinada com uma pesquisa de mercado para análise de viabilidade. Ideias com grande potencial são novamente estreitadas e tem início o processo de tornar a pesquisa uma commodity negociável.

 

Artigo relacionado: Design Thinking

 

4. Prototipar e testar: trabalho colaborativo entre pesquisadores e desenvolvedores de produtos, para entendimento e concordância sobre a transformação da ideia em produto prático. À medida que a interação avança, a complexidade do protótipo pode aumentar e problemas como produção em massa e táticas de venda podem surgir no processo;

 

5. Outras atividades: atividades reguladoras, de marketing e de desenvolvimento de produto – com o produto tomando forma, o processo acaba se dividindo entre as áreas responsáveis por levar a pesquisa para o mercado. Aspectos regulatórios são analisados e se inicia o trabalho para encontrar todos os critérios para aprovação e lançamento;

 

6. Lançar: o produto que iniciou como uma questão de pesquisa estará pronto para o grande teste: a introdução no mercado. A avaliação do produto continua nessa etapa e vai além, promovendo-se alterações, se necessário. A viabilidade da ideia pode ser questionada ou a pesquisa pode não revelar o que se estava esperando; por isso, é importante analisar a ideia, de forma crítica, em cada estágio.

 

Contudo, antes de iniciar o processo de P&D, a empresa deve analisar onde faz mais sentido produzir a própria base de conhecimento ou terceirizar o trabalho. Alguns fatores podem auxiliar na tomada de decisão:

 

  • Propriedade: se a natureza da pesquisa pode ser protegida através de patentes ou acordos de confidencialidade, essa pesquisa se torna propriedade da empresa por trás dela e se torna mais valiosa. Patentes podem permitir a uma empresa anos de domínio e maximização de ganhos e consolidar sua posição no mercado, e esse tipo de situação justifica os gastos com o processo de P&D. Por outro lado, se a pesquisa não pode ser protegida, se torna facilmente copiável por um concorrente; nesse caso, é mais vantajoso adquirir a pesquisa;
  • Tempo: o processo de P&D pode levar meses, ou até anos para ser concluído. Num mercado com taxa de crescimento acelerada, concorrentes podem correr na frente antes que a pesquisa esteja finalizada, tornando inútil o processo;
  • Risco: devido a sua natureza, P&D nem sempre é garantia de sucesso comercial. Talvez seja desejável adquirir a pesquisa requerida e convertê-la nas necessidades dos produtos. Há muito menos risco na aquisição, além de ser uma oportunidade de testar a tecnologia;
  • Custo: considerando o potencial sucesso de um produto, adquirir tecnologia é menos arriscado, mas mais custoso, do que gerar a própria pesquisa. Isso ocorre porque pode ocorrer a cobrança de taxas de licença ou royalties, ou acordos que requerem pagamentos vinculados às vendas e perduram pelo mesmo tempo da licença. Produzir a própria base de conhecimento requer um alto investimento inicial, mas protege a empresa do restante das limitações de adquirir pesquisa.

 

Para a criação de um processo de P&D efetivo, além dos fatores citados acima, é necessário considerar e analisar as necessidades dos clientes, identificar objetivos, definir e modelar o processo, e criar um time engajado e alinhado com os objetivos. O processo de P&D deve atender diversos propósitos e, com um bom gerenciamento, pode oferecer posição de destaque à empresa e propiciar um crescimento sustentável. Cabe a cada empresa definir as suas estratégias e alinhar os propósitos para a elaboração do P&D.

 

Referências:

 

Nota Técnica nº 60 – Diset Diretoria de Estudos e Políticas Setoriais de Inovação e Infraestrutura – IPEA, 2020. Redução drástica na inovação e no investimento em P&D no Brasil: o que dizem os indicadores da Pesquisa de Inovação 2017.

 

https://www.ibge.gov.br/estatisticas/multidominio/9141-pesquisa-de-inovacao.html?=&t=o-que-e

 

https://insights.liga.ventures/inovacao/o-que-e-um-pd/

 

https://www.mckinsey.com/business-functions/strategy-and-corporate-finance/our-insights/building-an-r-and-d-strategy-for-modern-times

 

 

Autores:

 

 

Diego Nardin

 

É consultor Sênior na MERITHU Consultoria no Rio Grande do Sul. Durante os 13 anos de sua trajetória profissional auxiliou organizações a melhorar seu desempenho com ênfase na Reestruturação Organizacional e de Processos, Gestão de Projetos, Formulação Estratégica e Gerenciamento da Rotina do Dia-a-Dia. É Administrador de Empresas formado pela PUCRS e especialista em Finanças Empresariais pela ESPM. Possui cursos em análise econômica financeira, green belts, six sigma e sistema de gestão avançado.

 

 

Fabiano Ávila

 

É consultor na MERITHU Consultoria no Rio Grande do Sul. Durante sua trajetória acadêmica e profissional, teve experiências no Núcleo de Interações Multidisciplinares – Escola de Engenharia da UFRGS, voltado à gestão de projetos, e na Dell Computadores do Brasil, trabalhando em times responsáveis pelo processo de comissionamento de parceiros e controle de despesas. É Engenheiro de Produção formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

 

MERITHU Consultoria

Somos uma empresa de Consultoria que acredita que o desenvolvimento humano é o principal fator de geração de Resultados para uma organização.

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